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De Juan Atkins à China: um review do ADE 2017

Por Gabriela Loschi

 

Do dia 18 a 22 de outubro aconteceu aquela semana do ano em que todos nós, profissionais da música eletrônica, preparamos cartões de visitas, demos e todo o material – além da saúde – para enfrentar uma maratona de painéis, workshops, meetings, cafés e, como não poderia faltar, inúmeras festas na belíssima cidade que é Amsterdam. Haja tempo, haja fôlego, mas sobram contatos, aprendizados e muita diversão ao longo desses cinco dias.

 

A 22º edição do Amsterdam Dance Event trouxe algumas novidades, apesar de seguir a mesma estrutura de eventos. A primeira delas foi encontrar a conferência principal em novo local – e sob o mesmo teto do ADE Dance & Brands -, no Teatro DeLaMar, enquanto o Felix Meritis, que nos últimos 16 anos foi o epicentro das palestras, está sendo renovado.

 

Com mais de 2200 artistas e 550 palestrantes, não é difícil entender por que a capital holandesa se torna o universo da comunidade global de dance music todos os anos nessa época. Além do município estar em plena sintonia com a cena clubber local, com apoio da política nacional, mais de 140 lugares entre clubs, bares, cafés, teatros, hotéis, se tornam palco para uma variedade de estilos musicais, conferências, showcases e vitrines de produtos.

 

Highlights

 

O show de abertura ficou por conta do Jameszoo & Metropole Orkest e logo no primeiro dia alguns dos destaques foram a fala inaugural do Underworld, o painel do Richie Hawtin no Sound Lab (que à noite tocou em um pop-up gratuito com a Loveland na balíssima praça de Nieuwmarkt), as master classes da Spinnin Records e Martin Garrix falando sobre estúdio e produção.

 

Um dos painéis tratou de um assunto cada vez mais urgente: a saúde mental e física de fãs e profissionais da música eletrônica. Pesquisadores, médicos e artistas debateram a polêmica, apresentando pesquisas alarmantes, como o fato de 70% dos entrevistados já terem sofrido depressão e ansiedade. “Significa que pessoas na musica são três vezes mais suscetíveis a sentirem esses sintomas”, afirmou Ben Pearce, CEO da Hearing Health Science. Juan Atkins contou que fez um transplante de rim recentemente: “Comecei muito novo, cometi exageros característicos de jovens. Poderia ter evitado se fizesse menos ‘afters’ ou ouvisse pessoas mais experientes. Talvez você não precise beber uma garrafa inteira de Jack Daniels. Durmam, não voem direto após uma gig, descansem, não pulem refeições”, ele aconselha.

 

ADE Green

 

Como não poderia faltar – já que é uma das maiores preocupações do ADE e da cidade de Amsterdam -, sustentabilidade e causas humanitárias estiveram presentes em 18 painéis só no primeiro dia de conferência (chamado de ADE GREEN), discutindo temas como mudanças climáticas e como engajar o público dos festivais com experiências sociais em torno dos desperdícios, energia, prevenção. Festivais como DGTL, Awakenings e Mysteryland foram tomados como exemplos de produções que buscam implementar cada vez mais ações nesse sentido, e o fundador da ID&T Duncan Stutterheim afirmou estar testando inovações em seus festivais. Com isso, o ADE continua mostrando e adiantando temas que serão discutido em outros mercados talvez só em muitos anos, pois fazem parte do pacote que engloba algumas das áreas mais vitais e progressistas da música eletrônica.

 

Mercados em Expansão

 

Outra parte importante das discussões foi como chegar e explorar outros países. Se ano passado o Brasil esteve no centro de alguns painéis, como festas e a administração de clubs no país, neste ano a China foi o foco (e Índia ocupando a atenção em alguns painéis também). Mas os chineses ocuparam a maioria das palestras envolvendo mercados que não o Europeu e o Norte-Americano.

 

São indústrias desejadas por artistas e produtores de eventos, por possuírem uma massa nova e ávida por música – especialmente o EDM -, porém permeados de infinitas particularidades, e foram temas de algumas das discussões mais requisitadas, com dicas de como explorar esses mercados tão singulares e relativamente novos para a música eletrônica. Artistas como Xu Mengyuan, que despontam na cena EDM local, proveram insights do público e do relacionamento com clubs e players importantes de sua região.

 

A indústria de dance music passou a ter uma posição real na China a partir dos anos 2000, quando um grupo de fãs chineses se levantam e começam a abraçar o gênero ao fundar a Acupuncture Records e realizar milhares de eventos com a label. No ADE ficou claro que muitos clubs chineses ainda se pautam prioritariamente por rakings e imprensa, mas que há um mercado emergente em crescimento focado em outros estilos musicais.

 

ADE Tech

 

No ADE Tech, uma série de apresentações e painéis foram organizados para se discutir o papel da música e da tecnologia no futuro, em parceria com o Paylogic e apoiado pela Paradiso Labs. Outros temas bastante debatidos foram o marketing, PR e Social Media, com alguns dos principais profissionais do segmento oferecendo dicas e mini consultorias.

 

The End

 

Ao final de todos os dias, o DeLaMar oferecia um mini happy hour para que as conexões espontâneas acontecessem, como todos os anos.

 

Em 2017 o ADE bateu recordes. Foram 395 mil visitantes – quase metade da população de Amsterdam -, 20 mil a mais do que no ano passado. Destes, 7200 são profissionais da indústria, e o restante – ou seja, a imensa maioria – são party people atrás dos bons showcases, festivais e clubs espelhados por Amsterdam durante a época.