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#RMCInsideTheClubs: Anzuclub se despede do público

#RMCInsideTheClubs: Anzuclub se despede do público

Bem-vindos à nova coluna do Portal RMC, que vai entrar, literalmente, no dia a dia dos clubs, através de entrevistas com os proprietários e/ou diretores, a fim de trazer à luz do mercado os maiores desafios e oportunidades no ambiente de negócios das instituições que alimentam, ao vivo, a cultura eletrônica no Brasil.

Encerrar uma história que por 20 anos envolveu milhares de pessoas, artistas e colaboradores não deve ser missão das mais fáceis. Nesta edição do #RMCInsideTheClubsMilton Muraro Filho, o Miltinho (foto abaixo), proprietário da Anzuclub, explica o que o levou à decisão de encerrar as atividades de um dos clubs mais lendários da história da música eletrônica no Brasil, que já recebeu em sua cabine artistas como Deep Dish, Deadmau5, Steve Angello e Armin van Buuren, dentre inúmeros outros.

Depois de um 2016 insano em termos de agenda e repercussão na web, o desafio é se manter entre os artistas mais disputados do mercado nacional. Para engajar seus mais de um milhão de fãs, o produtor aposta em envolver novos músicos no estúdio, como na nova faixa “Portal do Universo”, que inclui participação de Samantha Machado, Sandrão RZO, Nego Jam e Valente. Ouça abaixo o resultado e confira a entrevista exclusiva com Chapeleiro, que já está confirmado como uma das atrações do XXXPERIENCE Festival, que rola dia 11 de Novembro na Arena Maeda, em Itu/SP.

Estamos acompanhando online a repercussão da track “Portal do Universo”, que traz participações de Sandrão RZO, Nego Jam, Valente e Samantha Machado. Foi confortável incluir várias pessoas em um processo criativo que você está acostumado a desempenhar sozinho?
Nunca tinha trabalhado dessa forma, mas eu gostei muito e me senti envolvido completamente no projeto porque rolou um feeling forte entre todos nós! E foram meses de trabalho, conversa, reuniões, até chegar no resultado ideal. Já estamos preparando a próxima!

A track segue a fórmula do Brutal Bass, identidade que você criou para o som do Chapeleiro. Você pretende continuar nessa linha?
Criei esse estilo pra ser único e gosto da proporção que tomou, pretendo sim continuar e aprimorar ainda mais para evoluí-lo constantemente

A track foi lançada no dia do alinhamento dos planetas. O universo parece ter conspirado a favor, né?
Talvez, quem sabe (risos)?! A track tem uma história e condiz com muita coisa sobre a criação do universo.

Você segue alguma religião?
Vim de uma família evangélica e sigo isso como conhecimento também, acredito que existe um Deus e temos que ter fé.

O fato é que dia 07 de Outubro rola a festa oficial de encerramento, com Lost Frequencies como principal atração e todos os DJs que já foram residentes da casa – incluindo Rodrigo Ferrari e Buga, Viktor Mora, Soldera e vários outros. Confira abaixo o bate-papo franco com o Miltinho e programe-se para se despedir na Anzu salvando seu ingresso aqui.

Você sente um sabor de missão cumprida com o encerramento do Anzuclub de uma forma tão especial (celebrando 20 anos com uma atração como Lost Frequencies)?
Sim, meu sentimento é de total realização, é como um filho que você vê crescer e se forma na faculdade, aquela sensação de dever cumprido. Lost Frequencies tem a ver com o momento atual, mas o grande appeal foi chamar todos os DJs residentes que passaram pelo club para tocar nessa noite. É uma mistura de um sentimento de gratidão e nostalgia.

Ano passado o club atingiu a 18ª colocação no ranking #Top100Clubs, da DJ Mag. E este ano a 31ª posição. Você alcançou tudo o que você esperava em termos de reconhecimento?
Para mim o maior reconhecimento foi em 2007, quando recebi uma carta convite de Londres, da DJ Mag, a participar dos 100 melhores clubs do mundo. Depois de 10 anos de club, você receber um convite desses foi algo que me emocionou na época, a questão da posição no ranking não é maior do que o reconhecimento de estar entre os melhores do mundo.

Quando foi o momento em que você, particularmente, começou a pensar na possibilidade de encerrar as atividades e qual foi, de verdade, o estopim para que você chegasse a essa decisão?
Venho amadurecendo essa ideia há dois anos, mas sempre o apego emocional é mais forte e aí você acaba postergando e postergando… Esse ano tínhamos três atrações (Nicky Romero, Don Diablo e Deorro) que estavam certas de acontecer, proposta aceita pelas agências e aguardando apenas o contrato, quando há praticamente 60 dias antes do evento todos (cada um no seu tempo) declinaram de vir ao Brasil, por “n”desculpas, como gravação em estúdio, um festival que surgiu na Ásia ou simplesmente um cancelamento pois o “artista” resolveu mudar a Tour e prefere vir no Carnaval. Fato é que hoje em dia, com o real desvalorizado, o Brasil não tem força de fazer propostas ao mesmo nível do resto do mundo, então o artista recebe a proposta do Brasil, dá o aceite e coloca na gaveta até avaliar qual proposta é maior. É uma espécie de leilão e, quando cai a tour, você já não tem tempo hábil para colocar outro artista de porte no lugar e todo seu planejamento vai por água abaixo. Essa falta de comprometimento foi o estopim para decidir sair do business, não tenho mais saco para ficar aguentando isso.

O anúncio do fechamento gerou uma grande comoção entre os frequentadores e, sobretudo, entre os DJs que mantiveram residência na casa…
Sim, sinceramente eu não esperava todo esse sentimento, quando você está dentro do negócio é muito difícil conseguir ter a dimensão do reflexo do lado externo. Foi algo que me emocionou bastante, sabe, aquele orgulho de ter construído algo que deu certo e as pessoas retribuindo com carinho e gratidão.

O Viktor Mora foi o DJ que mais tempo permaneceu como residente no club, por mais de 15 anos (1998-2014). Foi uma história frutífera para ambos os lados, né? Você se lembra de como o convidou para se tornar residente?
Opa se me lembro, Mora era um menino acho que tinha uns 17 anos e começando a carreira de DJ. Como somos da mesma cidade (Sorocaba), eu comecei a escutar que havia um menino talentoso, aí entrei em contato com ele e marcamos de ele fazer um teste na Anzu. Chamei ele numa tarde de terça-feira, liguei o som da casa e fiquei no meio da pista para ele tocar um set de 60 minutos. Aos 20 minutos pedi para que ele parasse e falei: “Ei, você está contratado”. Tenho uma grande admiração pelo Mora, nossa amizade hoje vai muito além de trabalho, ele é um grande amigo.

Há algum plano para dar sequência a esse legado? Exemplo: produzir um “festival-boutique” anual com a marca não seria uma oportunidade interessante?
Por enquanto não tenho nenhum projeto, mas também não descartaria a ideia.

Você tem acompanhado as ações da Space Ibiza pós-fechamento?
Não tenho acompanhado…

Se você tivesse a oportunidade de voltar no tempo, em 1997… O que você mudaria no projeto?
Não mudaria em nada, fomos muito felizes com o projeto do Club, meu saudoso guru, o arquiteto Washington Fiuza, foi muito assertivo naquilo que imaginávamos: um projeto atemporal, usando elementos como tijolo, aço e vidro – a ideia era de um grande Warehouse com estrutura modular para atender todo tipo de evento, incluindo sociais (casamentos, formaturas e corporativos), sem perder a essência do Club na linha eletrônica.

Qual será o futuro da Anzu e de sua estrutura física?
A marca Anzuclub ficará adormecida, dando espaço a uma nova marca para eventos. Como o prédio é próprio, assim como toda a estrutura de equipamentos de som, luz, ar-condicionado, etc. A estrutura é multifuncional, o prédio foi projetado para receber todo tipo de evento, desde sociais e corporativos até festas, a casa pode ser modular a eventos de 300 a 3000 pessoas. Acreditamos que o interior tem falta de espaços como o da Anzu e vamos investir nisso.

DJs como Armin van Buuren, Steve Angello, Dimitri Vegas & Like Mike, Skrillex, Paul van Dyk e Fatboy Slim, dentre outros big names, passaram por essa cabine. Já foi mais fácil contratar grandes nomes do cenário internacional?
Sim, muito mais. Hoje temos uma moeda muito desvalorizada para ofertar grandes cachês. Além disso o mercado abriu muito: há 10 anos atrás a Europa era o grande player. Hoje Ásia e Estados Unidos são os maiores consumidores desses artistas, o que elevou bastante as ofertas.

Para finalizar, algum desabafo que você desejaria fazer às práticas de mercado que hoje em dia têm contribuído para o processo global de enfraquecimento dos clubs (tema de discussão em paineis em conferências como RMC, IMS e ADE)?
Temos um cenário hoje totalmente corrompido, em especial sobre as práticas das chamadas “agências de DJs” que deixaram de ser prestadores de serviços para se tornarem os principais concorrentes dos Clubs. As próprias agências estão contratando os DJs, e não repassando aos seus “clientes”, fazendo seus próprios festivais. Quando essas agências conseguem um artista de destaque elas pensam no interesse unilateral, primeiro ela analisa se vai fazer o evento com o artista. E depois, caso ela opte por não fazer, oferece ao mercado fazendo leilões de quem paga mais, desde shows de sertanejo a festas privadas de algum playboy, ou seja, hoje não há mais preocupação em “cuidar” da imagem do artista. Ele toca onde pagam mais e ponto.

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