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Entrevista: em tour, Blancah falou com exclusividade ao RMC

Em tour internacional, Blancah atendeu ao RMC para um bate-papo rápido sobre seu novo EP, sobre viver de arte no Brasil e sobre ter entre seus fãs artistas renomados como Dubfire e Hernan Cattaneo. Não é a toa, portanto, que ela ganhou o Prêmio RMC na categoria “Produtor Revelação” em 2016. Como ela mesma diz, “tudo no tempo certo”. Confira abaixo a entrevista exclusiva.

Como foi essa história de emagrecer para fazer o “Osso EP”? Qual é o conceito deste trabalho? Conte-nos um pouco sobre o seu momento de vida ao longo do processo criativo.
Em geral, para cada EP eu crio um conceito que me norteia tanto musicalmente quanto esteticamente. Acho muito importante entender que quando compomos estamos criando algo que vai nos representar para o resto de nossas vidas. Não sou do tipo que produz por produzir. Cada EP que faço é um pedaço importante de mim e sinto que devo tratar todo o trabalho com respeito. Por isso criar conceitos é algo imprescindível no meu trabalho.
O conceito do OSSO começou a surgir quando eu estava finalizando meu álbum “NEST”.
O álbum não tinha um compromisso com a pista de dança. Fiz músicas de pista mas também me foquei em músicas mais Ambient, Trip Hop e Electronica. Por este motivo pensei que meu próximo passo deveria ser focado absolutamente em pista de dança. Minha intensão era vir mais forte no tocante a minha musicalidade, puxar para um techno mais pesado e reto. A ideia do OSSO como conceito veio pra fortalecer a ideia do peso, já que osso é a estrutura rígida que nos sustenta, ao mesmo tempo exige a exposição da carne para que ele apareça, e essa imagem da carne aberta também é muito forte. Então pra mim o OSSO era a representação ideal desse som que eu queria fazer. Na medida em que sentei pra compor percebi que não gostava do resultado final das músicas. Fui aos poucos percebendo que ainda não era o momento de mudar drasticamente… Então naturalmente minha essência poética se impôs, e no final das contas minha musicalidade permaneceu no campo melódico e mais suave. No início lutei contra isso e me frustrei por não me achar capaz de chegar no resultado que eu almejava. Quando resolvi aceitar… Aí doeu menos, como já diz o ditado (risos).
Te dou esta explicação para chegar no porquê do emagrecer. Este processo de composição do EP pra mim foi também um processo onde tive de aceitar minhas limitações e quis representar elas através da ideia de fragilidade. Eu queria no ensaio fotográfico demonstrar um pouco a fragilidade do que somos. De certo modo estas fotos simbolizam a minha fragilidade e pra mim traduzem o processo criativo cheio de incertezas pelo qual atravessei pra criar este EP. Foi algo bem simbólico mesmo. Eu queria algo que também causasse estranheza. Quanto mais magra eu pudesse estar mais frágil e estranho o corpo seria na imagem.

Pude ver a reação das pessoas em Beirute, no AHM, quando você tocou sua nova track “Hamato”. Esta é a melhor recompensa por se dedicar à arte?
Sem dúvida. Ter esse feedback na pista e também fora dela. Em geral recebo muito carinho das pessoas que gostam do que eu faço. Recebo mensagens o tempo todo e faço questão de responder a todos. Acho lindo o fato de alguém despender uns minutos do seu dia para escrever a alguém como eu, só para compartilhar impressões e sentimentos a respeito do que eu faço. Sem dúvida é essa troca o que mais me recompensa.

É verdade que o Dubfire também curtiu?
Sim. Na verdade estou bastante feliz com a repercussão do EP. Hernan Cattaneo, por exemplo, que já tocou algumas faixas minhas recentemente, disse ser fã do meu trabalho, e isso me deixa obviamente radiante.

Além de descobrir que Istambul não é a capital da Turquia, o que mais você tem descoberto nesta última tour internacional (em andamento)?
Eu tenho o hábito de não pesquisar nada a respeito sobre os lugares aonde estou indo. Assim não crio nenhum tipo de expectativa e deixo bastante espaço para a surpresa e o encantamento. No Líbano descobri a culinária maravilhosa! Conheci uma das cidades mais antigas do mundo, chamada Biblos, também conhecida como a cidade do “livro”, “bíblia”. Também me levaram para conhecer as árvores mais antigas do mundo que ficam nas montanhas de Chouf, pura energia. No aeroporto de Beirut tinha uma centena de pessoas vestidas apenas com toalhas de banho brancas (juro). Super bizarro. Alguns vestiam duas ou três toalhas presas apenas por alfinetes. Fiquei super intrigada e escrevi na hora para meu amigo libanês Yves perguntando que porra era aquela (risos). Aí ele me explicou que se tratavam de peregrinos indo sei lá pra onde, e que se vestiam assim para demonstrar sua pureza. A verdade é que o Oriente Médio é fascinante.

Como começou sua história com a Steyoyoke?
Quando conheci o Soul Button (label boss) há uns 4 anos atrás em Florianópolis. Ele estava se apresentando em uma festa por lá. Após a festa fui até ele dizer o quanto tinha me impressionado a música que ouvi. A partir daí nos tornamos amigos, uma amizade que dura até hoje. A gravadora tinha apenas um ano naquela ocasião. Mandei minha primeira demo e ele curtiu de cara. Resolveu apostar em mim. E aqui estamos nós, 5 anos depois, crescendo juntos. Hoje somos uma das gravadoras mais respeitadas do circuito do Deep House, Progressive e Techno. E a jornada está apenas no início.

Quais são os artistas que mais te enchem os olhos atualmente?
Nick Devon, meu parceiro de gravadora. O Hraach vem produzindo músicas lindas. Tenho ouvido bastante um cara chamado Sainte Vie, que me foi apresentado pelo Artimpakt. Tenho curtido bastante uma galera da cena mais Downtempo.

Você ganhou o V Prêmio RMC (2016) na categoria “Produtor Revelação”. O reconhecimento demorou a chegar?
Acho que tudo vem no tempo certo. Eu já tive muita pressa, principalmente quando não sabia por que caminho seguir e me debatia bastante, vivia ansiosa tentando me encontrar. Hoje sinto que me encontrei e comecei a trilhar o meu próprio caminho. Agora eu não corro mais, apenas caminho. Tudo que vir agora é apenas o fruto das coisas que plantei e sigo plantando. Não almejo sucesso astronômico, almejo apenas ser respeitada pelo que faço.

Há espaço no Brasil para este Techno mais poético e menos pista? Em outras palavras, é possível viver de arte em nosso país nos dias de hoje?
Eu sou a prova viva disso. Toda minha formação foi em Artes. Nunca realizei um trabalho que não fosse ligado à arte, desde dar aulas de pintura, desenho, e em faculdade de design, até discotecar e trabalhar em rádio. Minha carteira de trabalho até hoje é vazia, no máximo duas assinaturas, e eu estou viva. O conceito de segurança hoje é uma ilusão. Antes parecia mais provável que um diploma e um emprego fixo seriam os alicerces das nossas vidas. Hoje em dia nada mais é garantia. Pra mim sempre valeu a máxima do “ faça o que te dá prazer que o resto se ajeita” . Obviamente não é fácil, é preciso muita devoção e integridade antes de mais nada porque Arte no Brasil é artigo supérfluo. Você vive batalhas diárias e constantes para convencer o mundo da sua existência e que o que você faz e pensa tem valor. Mas se eu dissesse que é impossível, estaria negando a minha própria história.