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ENTREVISTA: BEEHIVE @ RMC

Bem-vindos à nova coluna do Portal RMC, que vai entrar, literalmente, no dia a dia dos clubs, através de entrevistas com os proprietários e/ou diretores, a fim trazer à luz do mercado os maiores desafios e oportunidades no ambiente de negócios das instituições que alimentam, ao vivo, a cultura eletrônica no Brasil.

A querida Beehive, casa noturna que colocou o extremo Sul do país em destaque no mapa da música eletrônica nacional, celebra 11 anos de atividades com duas festas em Setembro. A primeira delas (com ingressos esgotados) acontece neste sábado (02), com Giorgia Angiuli e Victor Ruiz, além do residente Leo Janeiro, que também se apresenta na segunda festa, dia 19, ao lado de The Black Madonna, Gui Boratto e CJ Jeff.

Falamos com Guilherme Dornelles, um dos cinco sócios do negócio, que falou sobre o reconhecimento do club e de sua inabalável força, mesmo em um momento tão delicado para os clubs no Brasil. Confira abaixo:

11 anos de Beehive… Antes de mais nada, nossos devidos parabéns! E a primeira pergunta: como se manter fiel ao conceito depois de um período tão longo?
Primeiro, obrigado pela lembrança e pela oportunidade. Acreditamos que a longevidade do nosso trabalho tem grande relação com isso, porque na verdade o conceito foi um reflexo da nossa essência, pois desde o início seguimos aquilo que gostamos e acreditamos. Esse conceito se tornou um estilo de vida para muitas pessoas que se identificaram com a ideia. Durante estes anos amadurecemos junto com o público e hoje temos conhecimento que tivemos um papel fundamental no desenvolvimento dessa cultura na nossa região. Investimos em uma ideia, isso nos ajudou a criar uma identidade e hoje o público reconhece essa caminhada. Pensando sobre isso fica difícil imaginar um caminho diferente para a Beehive.

Ao longo dessa jornada de 11 anos, tantos artistas já passaram pelo club (incluindo nomes como Deadmau5). Algumas lembranças especiais? Evidentemente que muitas, pressuponho. Mas contem-nos algumas…
São vários anos e cada época teve seus momentos marcantes. No antigo local recebemos Deadmau5 e tivemos grandes noites com outros artistas. Foram 2 anos intensos em uma pista para aproximadamente 500 pessoas. Em março de 2009 nos mudamos para o local atual e a noite de inauguração teve um significado marcante na história, pela importância da transição e pela forma que aconteceu, pois nos mudamos em pouco mais de 3 meses para um prédio tombado e que estava abandonado, conseguindo a liberação apenas na semana da festa. De lá pra cá recebemos grandes artistas e cada um teve o seu momento no club. O público gaúcho é muito receptivo e a conexão com alguns artistas ocorreu de forma tão natural que essas noites se tornaram de fato emblemáticas. Lembramos do James Zabiela encerrando o set junto ao público na pista, Marco Carola mostrando uma forma impressionante de conduzir a pista, a noite com Hosh após um blackout de luz na cidade no início da festa, a noite de estreia no club da Nastia, o closing set da noite de aniversário do ano passado com Wolf+Lamb em um sunrise sensacional, a tour de 15 anos do Watergate que aconteceu recentemente em um clima praticamente familiar e talvez a grande noite da história para muitos, que foi o long set de 6h do Seth Troxler, onde tivemos uma experiência maior com o artista que chegou no dia anterior à festa e viveu um pouco mais o clima da cidade.
É difícil falar sobre lembranças porque elas são muito individuais, mas essas noites com certeza tiveram um significado diferente.

Como foi no início, em 2006? Era para ser apenas um projeto pontual e acabou virando club devido ao sucesso, foi isso?
Isso mesmo. A ideia inicial era desenvolver um projeto. Foram realizadas 3 festas no final de 2006 e uma programação de verão em 2007, com 7 festas. A aceitação do público foi boa e a partir de março daquele ano a casa passou a adotar o nome do projeto, apresentando a primeira programação como Beehive Club. Permanecemos naquele local durante 2 anos e no final de 2008 projetamos a mudança para onde estamos atualmente.

Como se comportou o quadro societário da Bee nesse tempo todo?
Tivemos poucas mudanças desde o início. Atualmente somos em 5 sócios, mantendo a mesma base há mais de 8 anos.

A celebração de 11 anos foi dividida em duas… Artistas como The Black Madonna, Giorgia Angiuli, CJ Jeff, Gui Boratto e Victor Ruiz estão entre os convidados. Como estão os preparativos? Probablidade alta de SOLD OUT para ambas as noites, imagino…
O mês de setembro sempre teve um significado especial e com o passar dos anos as datas de aniversário começaram a ter um valor diferente, pois é o momento em que conseguimos reunir diversos amigos e parceiros que ajudaram de alguma forma a construir esta história. É realmente uma celebração entre amigos. Normalmente fazíamos uma única noite, mas para este ano criamos uma situação diferente, brincando com a numerologia dos anos (11 = 1+1 = 2). Serão 2 grandes noites, com 2 estreias, 2 live acts e 2 long sets, além dos nossos residentes. Formamos um grande time de artistas e a resposta deu super certo: a primeira noite está sold out e a segunda está caminhando para isso também.
Além disso teremos algumas surpresas. Desenvolvemos alguns projetos que já poderão ser vistos na primeira noite do aniversário, para melhorar ainda mais o serviço e a experiência do público dentro do club.

Quais foram as maiores dificuldades na gestão do club no passado e agora no presente?
No início tivemos algumas dificuldades para contratação de alguns artistas, pois a cidade está localizada longe dos grandes centros, o club não era conhecido e não existiam muitas opções para montar as logísticas. Isso travou algumas negociações mas com o tempo foi mudando. Atualmente temos mais opções de voos mas com custos extremamente elevados. Outro ponto é o fato não termos a mesma visibilidade de outros centros, pois isso reduz a margem de investimentos por parte de indústrias e patrocinadores. Estes são alguns pontos específicos do nosso negócio, mas sem dúvida a maior dificuldade é empreender no Brasil atualmente. O empresário no Brasil não possui nenhum incentivo e precisa fazer milagres.

O fato de Passo Fundo ser um polo universitário contribuiu decisivamente para o sucesso do negócio? Vocês fazem alguma ação específica para atrair este público?
É importante falar que Passo Fundo sempre teve uma cultura forte no mercado noturno. Isso vem da geração dos nossos pais, onde algumas casas já atraíam pessoas de outras cidades para as noites daqui.
Geograficamente estamos distantes dos grandes centros, porém, a região se desenvolveu bastante nos últimos anos e Passo Fundo se consolidou como a principal cidade da região norte do estado, tornando-se um grande polo médico e universitário. Com isso a cidade acaba recebendo uma grande quantidade de estudantes e a renovação desse público é constante, contribuindo bastante para a sequência do nosso negócio. Trabalhamos de forma direcionada dentro dessas instituições, desenvolvendo projetos e parcerias que possibilitem a conexão do público com a Beehive. Já criamos um programa de rádio com a principal Universidade daqui, eventos específicos com as instituições, núcleos e turmas de algumas faculdades, além da divulgação do nosso trabalho através de uma publicidade direcionada, como exemplo os Guias completos da nossa programação, distribuídos nestes locais.

Em 2016 a Beehive levou o Prêmio RMC na categoria “Club Off Circuit”. Como vocês receberam este reconhecimento?
Primeiro queremos parabenizar o RMC pela iniciativa da categoria. É importante olhar de forma diferente para este circuito, pois existem ótimos trabalhos sendo realizados fora dos grandes centros.
Sobre o Prêmio foi um prazer enorme. Não pelo ranking em si, mas em especial pela forma que a premiação é realizada, pois demonstra o reconhecimento das pessoas que trabalham neste mercado. Quando premiações como essa acontecem, nos mostram que estamos no caminho certo e isso nos motiva a seguir. Acreditamos que isso é fruto desses longos anos de trabalho sério, com muito profissionalismo e dedicação, mostrando que o negócio amadureceu e que conquistamos o nosso espaço.

Hoje em dia vivemos uma época que vem sendo amplamente debatida nas principais conferências de música eletrônica do mundo, em um processo que eles chamam de enfraquecimento da cultura clubbing, ou dos clubs como instituições de entretenimento semanal. Como a Beehive tem lidado com essa tendência?
Percebemos essa movimentação e acompanhamos alguns comentários sobre isso, mas ainda não sentimos isso por aqui. Estamos vivendo a melhor fase do club, com recordes de público e um crescimento muito bom da marca. Nós nos desenvolvemos nessa cultura, aprendemos a gostar da música frequentando clubs e por isso acreditamos que eles têm um papel fundamental, pois fomentam e ajudam a manter o mercado ativo. A cultura se desenvolve em volta disso, com tempo e periodicidade.

Existe algum plano de expansão? O formato da Beehive se encaixaria em outras cidades do Brasil?
Estamos desenvolvendo um plano de fortalecimento da marca, para que algumas ideias possam sair do papel. Pretendemos nos tornar um veículo completo de música, com solidez, para depois ter a condição de levar a Beehive para outros locais. Além disso, estamos com um novo projeto em andamento, dentro do Parque Tecnológico da Universidade de Passo Fundo, com alunos da instituição, para desenvolver soluções para alguns serviços do entretenimento. Se pensar na Beehive como um club urbano, se encaixa em várias cidades do Brasil. Porém temos algumas especificidades aqui, como a arquitetura do prédio que é muito singular e não se constrói mais e principalmente a equipe que montamos durante todos esses anos. O sucesso de qualquer negócio depende muito mais da dedicação dessas pessoas do que do formato ou localização.

Falando-se abertamente de curadoria artística, como funciona o processo de contratação hoje (como saber qual artista vai ter boa aceitação do público e ao mesmo tempo render uma bilheteria considerável)?
Em primeiro lugar seguimos a essência do club. Com base nisso, procuramos estar atualizados e atentos ao que acontece no cenário mundial e nas movimentações do nosso público, permanecendo sempre em contato com o cliente. O nosso mercado muda constantemente e por isso exige essa atualização. O público espera as novidades e precisamos ter o feeling certo na hora de escolher as novas apostas.
Entendemos que faz parte da nossa missão apresentar as novidades e manter o nosso público conectado com o que tem de melhor no mundo.